Marketing Digital

Marketing Educacional no Pós-Marco Regulatório EAD

O Decreto 12.456/2025 mudou o produto das IES. Veja como adaptar o marketing educacional ao semipresencial com dados, funil e copy certos.

Roberto Fernandes

Marketing Educacional no Pós-Marco Regulatório EAD
8 min de leitura

O mercado de educação superior no Brasil trocou de produto sem avisar o time de marketing. O Decreto 12.456/2025 restringiu a oferta de cursos 100% a distância em dezenas de áreas e criou o formato semipresencial como modalidade oficial. Resultado: o primeiro processo seletivo integralmente sob as novas regras derrubou as matrículas EAD em até 73% nos seis maiores grupos educacionais listados na B3, enquanto o semipresencial assumiu 60% das novas entradas nesses grupos. Quem ainda roda campanha com o discurso de "faculdade online e acessível" está comprando tráfego para um funil que mudou de forma.

Principais pontos

  • O Decreto 12.456/2025 proibiu o EAD 100% em saúde, licenciaturas, engenharias e áreas correlatas, tornando o semipresencial o novo padrão de captação nessas graduações.
  • O semipresencial exige ao menos 30% de carga horária presencial física, o que muda radicalmente a proposta de valor comunicada ao candidato.
  • Funil, copy e landing page de EAD não funcionam para semipresencial: o produto é mais caro, exige deslocamento e tem um ciclo de decisão mais longo.
  • Qualificar o lead geograficamente, antes mesmo de iniciar o fluxo de nutrição, é o passo mais negligenciado nas campanhas de captação semipresencial.
  • A métrica de sucesso muda: o custo por lead perde relevância sozinho; o que importa é o custo por matrícula efetivada, segmentado por polo e por curso.

O que o Decreto 12.456/2025 mudou na prática

Publicado em 19 de maio de 2025, o Decreto nº 12.456 revogou o marco anterior (Decreto 9.057/2017) e formalizou três formatos de oferta para a graduação: presencial, semipresencial e a distância. Cada um com percentuais mínimos definidos em lei.

Para o formato a distância, o mínimo passou a ser 20% de atividades presenciais ou síncronas mediadas, além de provas presenciais obrigatórias. Para o semipresencial, o decreto exige ao menos 30% de atividades presenciais físicas (laboratório, estágio, extensão) e mais 20% em atividades síncronas. Isso significa que, na prática, o aluno precisa aparecer com regularidade — e a distância até o polo importa.

Os cursos vedados ao formato EAD são Direito, Medicina, Enfermagem, Odontologia e Psicologia, que passam a ser exclusivamente presenciais. Além desses, cursos das áreas de saúde, licenciaturas, engenharia, ciências naturais, agricultura e veterinária também não podem mais ser oferecidos 100% a distância para novos ingressantes, sendo permitidos apenas nos formatos presencial ou semipresencial.

As novas regras valem para novas matrículas a partir de agosto de 2025. Estudantes já matriculados têm direito de concluir os cursos no formato original.

Por que o funil de EAD não serve para o semipresencial

O funil de captação EAD foi construído em torno de três argumentos: preço baixo, flexibilidade total e ausência de deslocamento. A copy, a landing page, o CPC e o perfil de público-alvo foram todos calibrados para esse produto.

O semipresencial derruba os três pilares:

  • Preço: a estrutura de polos exige maior custo operacional por aluno. A tendência, já observada no setor, é de mensalidades mais altas do que no EAD puro, o que altera a percepção de valor e a sensibilidade a preço do candidato.
  • Flexibilidade: o aluno precisa comparecer presencialmente em dias e horários definidos. A promessa de "estude quando e onde quiser" deixa de ser verdadeira.
  • Deslocamento: a distância até o polo passa a ser um critério decisivo na conversão. Um lead que mora a 80 km do polo mais próximo dificilmente vai se matricular, não importa qual seja a oferta.

Quando a campanha ignora essas diferenças, o que ocorre é um volume alto de leads com taxa de conversão baixa, pois boa parte do tráfego gerado vem de pessoas fora do raio viável ou com expectativas incompatíveis com o produto real.

Um dado ilustra bem o problema: no primeiro trimestre de 2026, o EAD encolheu entre 14% e 73% nos grupos listados da B3, com a Ser Educacional registrando queda de 72,6%. Grupos que se prepararam melhor sentiram a mudança de forma menos abrupta: a Vitru recuou 2,8% na captação pela métrica tradicional, enquanto a Cruzeiro do Sul recuou 23,5%. A diferença, segundo análise do Tracking Educacional Crátilo, não foi de tamanho ou sorte, mas de preparação.

O novo perfil do candidato semipresencial

O público do EAD puro tem um perfil demográfico claro: 67,3% dos alunos têm 25 anos ou mais, com forte concentração entre 30 e 49 anos — adultos que trabalham, têm família e não podem frequentar uma faculdade convencional. A EAD funcionou como porta de entrada para esse público exatamente porque eliminava o deslocamento.

O semipresencial precisa ser comunicado para um perfil que aceita alguma presença física, mas ainda valoriza a flexibilidade. Esse candidato não é o mesmo que escolheria um curso 100% presencial, nem é o mesmo que escolheria o EAD puro. É um segmento diferente, com objeções diferentes:

  • "Onde fica o polo?" (antes, a pergunta era irrelevante)
  • "Quais dias tenho que ir?" (novo critério de decisão)
  • "Como funciona a parte prática?" (pergunta que o EAD raramente recebia)
  • "O diploma vai ser reconhecido da mesma forma?" (ansiedade gerada pela transição regulatória)

Landing pages que não respondem a essas perguntas antes do cadastro geram leads desqualificados. O candidato entra no funil sem entender o produto, e o time de vendas gasta tempo explicando o básico no lugar de converter.

Como reconstruir o funil de captação para o semipresencial

Não existe um ajuste pontual que resolve. O funil precisa ser redesenhado em pelo menos quatro camadas:

1. Segmentação geográfica como pré-condição de entrada

Antes de qualquer ação de mídia, mapeie os polos disponíveis e defina o raio de captação viável para cada um. Isso varia por perfil socioeconômico da região, disponibilidade de transporte e tempo médio de deslocamento tolerável pelo público-alvo. A segmentação de campanhas por raio geográfico ao redor de cada polo não é opcional: é o pré-requisito para que o CPL faça sentido.

Campanhas com segmentação nacional para produtos semipresenciais inflam volume de leads e derrubam a taxa de conversão. O número parece bom no painel; o resultado na matrícula não.

2. Copy e proposta de valor adequadas ao produto

O argumento "estude sem sair de casa" está errado para o semipresencial. O argumento correto é outro: flexibilidade com estrutura, ou aprendizado prático sem abrir mão da vida que você tem. Qual desses ressoa depende do perfil do curso e do público da região — e essa resposta vem de teste, não de suposição.

Em 15 segundos de Reels, o EAD vendia um benefício simples. O semipresencial precisa de mais contexto, o que favorece formatos um pouco mais longos no meio do funil: vídeos explicativos sobre como funciona o polo, depoimentos de alunos que trabalham e estudam, tour pelo espaço físico.

3. Qualificação de leads antes da abordagem comercial

O lead de semipresencial precisa ser qualificado em pelo menos três dimensões antes de ir para o time de vendas:

  • Localização: está dentro do raio viável de um polo?
  • Disponibilidade: tem condição de comparecer nos dias previstos?
  • Expectativa: entende que haverá presença obrigatória?

Esse filtro pode ser feito via formulário com perguntas diretas, fluxo de automação com qualificação progressiva ou chatbot antes da transferência para o consultor. O objetivo não é reduzir o volume de contatos — é garantir que o consultor dedique tempo a quem tem real condição de se matricular.

4. Reconstrução do argumento de preço

O semipresencial custa mais do que o EAD puro. Apresentar o preço sem contexto gera objeção imediata de quem foi educado pelo mercado a esperar mensalidades de três dígitos. O funil precisa construir percepção de valor antes de apresentar o investimento: o que o aluno ganha com a presença física, qual é a diferença no mercado de trabalho, como funciona o suporte do polo.

Isso não é copy motivacional. É comunicação de produto.

Como medir se a estratégia está funcionando

O indicador de custo por lead, isolado, é enganoso em contextos de produto novo. Uma campanha pode gerar muitos leads baratos de pessoas fora do raio ou com expectativa errada sobre a modalidade. O lead sai barato, a matrícula não acontece.

Os indicadores que fazem sentido para captação semipresencial:

  • Taxa de qualificação por polo: qual percentual dos leads gerados está dentro do raio viável de cada unidade?
  • Taxa de conversão lead-matrícula por curso e por polo: identifica onde o discurso está funcionando e onde há desajuste entre produto e expectativa.
  • Custo por matrícula efetivada (CPM): não o CPL, mas o custo final por aluno que assinou e pagou a primeira mensalidade.
  • Taxa de evasão no primeiro ciclo: alunos que saem nos primeiros 60 dias, muitas vezes por expectativa incompatível com o produto, são um sinal de falha na comunicação pré-venda, não apenas na retenção.

Um dashboard que cruza canal de origem, polo de destino e status de matrícula em tempo real — integrado ao CRM da IES — é o mínimo necessário para tomar decisões de alocação de verba com algum grau de confiança.

O que as IES e agências devem parar de fazer agora

Algumas práticas que funcionavam no ciclo anterior precisam ser revisadas:

  • Segmentação por interesse em "EAD": parte significativa do público que buscava EAD 100% pode não converter em semipresencial. É um público diferente.
  • Landing pages com foco exclusivo em preço e desconto: o argumento de preço baixo fica mais fraco quando o produto tem custo maior e exige presença.
  • Vídeos curtos que prometem "sem sair de casa": além de tecnicamente errado para a maioria dos cursos agora, gera expectativa que o time de vendas vai ter que desfazer.
  • Ausência de filtro geográfico no topo do funil: o lead a 200 km do polo mais próximo não é lead qualificado para semipresencial — e tratar ele como lead aumenta o CPM e desgasta o comercial.

A captação semipresencial ainda está sendo descoberta pelo mercado. Quem estruturar o funil com dados reais — raio de polo, perfil de aluno, objeções mapeadas, copy testada e CRM integrado — vai operar com CPM significativamente menor do que quem continua rodando a campanha do ciclo anterior com criativo novo.

O produto mudou. A estratégia de marketing precisa mudar na mesma proporção.

Perguntas frequentes

O que é o Decreto 12.456/2025 e como ele afeta o marketing educacional?

O Decreto 12.456, publicado em maio de 2025, é o novo marco regulatório do EAD no Brasil. Ele proibiu o formato 100% a distância em dezenas de áreas (saúde, licenciaturas, engenharias) e criou o semipresencial como modalidade oficial, com presença física obrigatória. Para o marketing, isso significa que o produto vendido mudou: preço, logística e proposta de valor são diferentes, e campanhas construídas para o EAD puro não se adaptam automaticamente.

Qual é a diferença entre o público do EAD e o do semipresencial?

O público do EAD puro é majoritariamente adulto (acima de 25 anos), que valoriza a ausência de deslocamento como critério principal. O público do semipresencial aceita alguma presença física, mas ainda prioriza flexibilidade. São segmentos próximos, mas com objeções diferentes: o candidato do semipresencial quer saber onde fica o polo, em quais dias precisa comparecer e como funcionam as práticas presenciais — perguntas que raramente apareciam nas jornadas de EAD.

Por que a segmentação geográfica é tão importante nas campanhas de semipresencial?

Porque a distância até o polo é um critério de conversão, não apenas de preferência. Um lead que mora longe do polo disponível dificilmente efetiva a matrícula, mesmo que demonstre interesse inicial. Campanhas sem filtro geográfico geram volume de leads com baixa taxa de conversão, inflando o custo por matrícula e sobrecarregando o comercial com contatos sem potencial real.

Como adaptar a copy de uma campanha de EAD para o semipresencial?

O ponto de partida é abandonar os argumentos do EAD puro (sem deslocamento, sem horário fixo, preço mínimo). Para o semipresencial, a comunicação precisa deixar claro que haverá presença obrigatória, explicar como funciona o polo e construir valor em torno do equilíbrio entre flexibilidade e estrutura prática. O formato de vídeo explicativo e depoimentos reais tende a funcionar melhor do que o criativo de 15 segundos focado em desconto.

Qual métrica devo priorizar para avaliar campanhas de captação semipresencial?

O custo por matrícula efetivada (CPM), segmentado por polo e por curso, é o indicador mais relevante. O custo por lead (CPL) isolado é enganoso porque não considera a taxa de qualificação geográfica nem a taxa de conversão lead-matrícula. Acompanhar também a taxa de evasão nos primeiros 60 dias ajuda a identificar falhas na comunicação pré-venda que o time de vendas sozinho não consegue corrigir.

IES menores conseguem competir com os grandes grupos nesse novo cenário?

Sim, e em alguns aspectos com vantagem. Os grandes grupos estão ajustando operações em escala, o que torna a adaptação mais lenta. IES regionais com polos estabelecidos e presença local conhecida podem estruturar campanhas mais precisas, com raio de captação bem definido e argumentos de proximidade que os grandes grupos têm dificuldade de personalizar. A disputa muda de cobertura para relevância local.

Agências de marketing precisam mudar alguma coisa na forma como atendem IES?

Sim. Agências que atendem IES precisam compreender o produto semipresencial antes de construir qualquer campanha — isso inclui entender os cursos oferecidos, os polos disponíveis, o perfil de aluno que a IE quer atrair e as objeções mais comuns na venda. Rodar a mesma campanha de EAD com criativo novo não resolve. É necessário redesenhar funil, copy, segmentação e critérios de qualificação de lead do início.

Compartilhar
Roberto Fernandes

Escrito por

Roberto Fernandes

CEO e founder da Fator.ag

Especialista em mídia paga e performance, lidera a estratégia de aquisição na Fator.ag.